quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Primeiro presente



Amores virtuais
Também podem ser reais
Rolam juras, vontades
Desejos de verdade
Intenso tanto quanto dois adolescentes a se beijarem no cinema
Isso nutre a paixão à distância
Você, por exemplo,
Longe daqui
Aqueceu uma noite inteira
Enquanto eu comia abacaxi
Nas idas à geladeira
Ficamos nós a cometer loucuras
Físicas, sozinhos.
Imaginando juntos as que cometeremos quando nos encontrarmos
Seu sorriso é lindo
O beijo também deve ser
Quero beijar-te em meio às cócegas
Só para garantir o prazer
De beijar o teu sorriso
Quando em meus braços puder te ter

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O que é o presente?

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O que é o presente se não um "sei-la-o-que" na velocidade da luz?
Um segundo! É o máximo que o presente é!
A primeira frase é passado... O começo do dia, é passado.
O "ainda há pouco", é passado igual...
Por isso vivemos nostálgicos. Passados.
Vivemos no passado
O recente ou o distante
Tudo é passado!
O "agora" mal nasceu e morreu sem agonizar
Precoce como o coito de um coelho
Veloz como um cometa
Curto como um piscar dos olhos que não viram metade dos "agoras" deste dia
Quantos "agoras" não vivemos?
Só temos dois tempos: O passado e o futuro
Ou seja, não temos tempo de nada
O futuro é já.
E já, já é passado

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Viagem com Deus

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     De Botafogo, que não é nada além de um bairro charmoso, à Gávea, do maravilhoso time de Márcio Araújo, calcula-se em média  40 minutos de ônibus. 30, quando o Jardim Botânico está sorrindo ou em "não enchente" (daquele teste no qual passamos - uhul, prefeito!) .
     Hoje eu vinha sonolento como de costume, cansado, aquela cara de sofrido, sexta-feira, etc, e coisa e tal. Fechei os olhos para a sonequinha de sempre e ignorando completamente o fato de não estar sozinho disse:
     - Ah Deus, que o Senhor me acorde no ponto certo...
     - Eu te acordo!
     Pense no frio que eu senti na espinha, achando que Deus tinha mesmo me respondido. Ou que eu já estivesse no céu. Ou sei lá o que eu consegui pensar naquele pentelhésimo de segundo. Tive até medo de abrir os olhos... Nunca uma resposta de Deus foi tão rápida!
     Tomei coragem e abri os olhos. Um senhor, muito simpático, me olhava com o sorriso de quem é botafoguense e viu seu time ganhar na noite de ontem.

     Agradeci, afinal. E ele (Deus botafoguense, ou qualquer ser em forma humana) me acordou no Jóckey Club da Gávea. 

Prenúncio de um maravilhoso dia. :D

segunda-feira, 19 de junho de 2017

sobre a morte

Que me doa, a morte, quem sabe um dia
E que eu não tema a dor que me acometerá
O valente que não fui em vida
Não o finja na hora da partida
Que a ferida se abra pra não mais sarar
Estarei pronto, como estou Agora
Uma pílula por dia pra me preparar
Não há apreço por essa estadia
Este corpo onde minh'alma habita
Foi só um trem encarnado a me carregar
Sou então a alma que vaga
Nas vagas horas de existência carnal
Que não doa a dor da morte em vida
Pra que a vida em morte possa se eternizar

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Rio



Eu choro, meus amigos
Precisamente todo dia
De saudade dos amores
De mágoa ou de alegria
De tristeza com os fatos da periferia
Com os textos nos muros antigos
Com contos e poesia
Com música antiga
Sua letra e sua melodia
Renovando dia após dia
Os rios que moram em mim
Pra que as lágrimas que inundam os olhos
De toda emoção sem fim
Sejam sempre um motivo nobre
Para eu permitir cair

terça-feira, 30 de maio de 2017

Cansaço


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No meio da multidão
Com transeuntes comuns
cada qual com seus problemas
Ele deixou que embaçassem os olhos
Molhou o rosto, olhar ao longe
Sem secar e sem pudor
Abraçou um estranho
Caiu a fortaleza
Caiu a bravura
A armadura
Todo o peso...
Melodias diretas em seus ouvidos
Embalavam a cena

- Mas o que houve?
- Deve ser cansaço. Obrigado. Desculpa!

Secou o rosto
Limpou os olhos
Trocou a música
Dançou na praça
Se despediu de dois litros de cansaço
Mas sabe que seu cansaço é um oceano inteiro

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sobre as manipulações...


- O que você vai fazer amanhã?
- Além de acordar, nada planejado.
- E hoje, antes de dormir?
- Pensar se vale a pena acordar amanhã.
- Nossa... Você não faz planos?
- Sim... Mas entre dormir e acordar, todos eles são modificados ao prazer do Criador.
- Hum...

Escondido



Você ainda pode vir
Ainda estou aqui calado
Rouco de não falar
Sufocado pelo silêncio que inventei
A repressão que imaginei
Justificando todo medo de berrar

Se ainda quiser, pode chegar
Na mesma rua, na mesma casa
Ainda é o mesmo lugar
Que a covardia me aprisionou
Onde os pés não flutuaram
E as asas de criança
Pela metade me cortaram

Tudo bem, a culpa é minha
Tudo bem, tudo bem

Mas se puder, venha!
Talvez eu esteja precisando
Fingindo florecer
Evitando a explicação
Do que não soube entender

domingo, 21 de maio de 2017

parênteses - 1

Sou apaixonado. Estou assim
Pelos chãos do meu passado
E toda estrada percorrida sem fim
Pelos parênteses abertos
Os quais não consigo fechar
Dos amores, uma âncora
Mais que lembrança, um peso
Que me afunda e afunda meu peito
Dói. Sangra. Fere ardentemente
O passado mora lá...
Mas tira férias em meu presente

terça-feira, 25 de abril de 2017

Coisa



Já foi substantivo para objetos
Cuja identificação era impossibilitada por algum motivo
Nomeando algo cujo nome não era sabido...
Virou verbo destinado às ações cujo infinitivo fora esquecido
E então, "coisar" virou um hábito comum
Para qualquer...coisa!
Hoje, além de substantivo e verbo
A "coisificação" toda virou adjetivo.
Qualificando algo que nenhum vocábulo
é capaz de compreender
Assim estamos, todos nós..
Ficando um pouco "coisados"... "Coisudos"


terça-feira, 21 de março de 2017

À procura, à espera...

 












      Ela, àquela altura, já sabia o que queria. Mas quando muito se quer, muito se busca, e por consequência, se perde também. Confunde os quereres com as reais necessidades; a escassês de encontros se sobrepõe aos resultados positivos das buscas...
      Foi assim que ela percebeu a falta que fazia o amor. Já há um tempo sozinha, havia um vazio que não tinha outra explicação. Cheia de amigos, não eram eles capazes de preenchê-la. Dinheiro - pois bem, este sempre fez falta mesmo... Claro. Era mesmo o amor. O utópico! O dos sonhos... Alguém que dividisse as vitórias e as angústias. Alguém que a fizesse novamente tirar os pés do chão e que, com certeza,  bradasse: É ESSE!
      Identificando, assim, as necessidades, a princípio quis procurar. Aplicativos de relacionamento; Conhecimentos aleatórios em redes sociais; conversas vazias com antigos pretendentes; novas experiências... Tudo era em vão. Nem ali, nem em lugares óbvios. Não estavam o tal amor.
      Cansada de garimpar em caminhos tortos, passou a acreditar que Deus reservava um plano melhor para ela. Deus, confundido as vezes com "o acaso", a fez crer que quando tivesse que acontecer, aconteceria em qualquer lugar. Pegava sempre os mesmos transportes, nos mesmos horários. Consequentemente, encontrava quase sempre as mesmas pessoas. Mudou de estratégia, alterando seu trajeto até o trabalho. Outro metrô, outro trem, ônibus em outro ponto, caminhada por outra rua... Percebeu assim, que querendo parecer natural e à espera, estava provocando situações, configurando a tal espera num tipo de busca...
      Até hoje, ainda não encontrou o amor. Milton Nascimento, em uma de suas canções, diz (ainda que não seja sobre o amor): "pode estar aqui do lado, bem mais perto que pensamos...". Talvez amanhã. No trem, no banco, na fila... Talvez sem pressa. Quem sabe nem aconteça.
     Mas ela, ainda espera.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Caminhada













No caminho caminhado
Pelo meu pé caminhador
Descalço, e já com calo,
Deixei um cadin de flor

Em sorriso e em abraço
Quem perdeu, se encontrou
E no caminho caminhado
Tendo alguém sempre do lado
Foi feliz quando chorou

Enganei a dor e a morte
Ressurgi e emergi
Quando achei que fosse sorte
Era Deus a me sorrir

O caminho caminhado
Inda sequer está findado
Mas já fiz tanto na estrada
Tanto atalho, tanta entrada
Que nem ouso reclamar
Quando vez por outra - ou sempre
Encontro-me com azar

Se o caminho teve amor
Teve sorte, teve dor
Teve espinho, Teve flor
Até compensa o cansaço
Do meu pé caminhador

Escolha

Na premissa juvenil
carregava a confiança
de que ser tão viril
me daria a esperança
de ser duplamente feliz

Mas segue a vida
e percebe
que sem saída
rompe-se, fere-se,
e a felicidade lhe foge desde a raiz!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Nosso Sol












No céu desponta, cedinho
Bem atrás daquela ponte
Que daqui avisto a parte
Que seu corpo não esconde -
Retorcido e cansado
Preenchido de viveres -
Uma luz que pouco a pouco
Enche o dia de prazeres

Inda era madrugada
Quando tu adormecias
Nada competia, então
Só o teu calor sentia
E agora tanto brilho
Bem diante dos meus olhos
Ao olhar diretamente
Ameaça me cegar
Arde a vista e eu insisto
Me alegra a teimosia
E tu dormes, ignoras
Que a noite virou dia

Passados Amantes









O peito da gente vira
Uma morada engraçada
A gente dorme, acorda e um dia
De repente sente nada...

Todo amor que dor virou
Nos inundando vez ou outra
Quando vê, já se mudou,
Foi morar noutra pessoa

E se a outra pessoa
For eu, nesse momento?
Se ontem, vazio, o peito
Abriga algum sentimento:
De quem teria herdado
Um amor tão renegado
De um alguém entristecido
Por amores repassados?

...

More em mim, talvez, (Quem sabe?)
O que já foi seu um dia;
Os amores que meus pais
Já amaram em outras vidas;
Ou aquele que José
Entregou para Maria

Deixa fraco de tão forte
Que quem imaginaria
Que da dor, o amor viria?
Sendo amado, assim: Tanto!
Requentado de outras vidas
Sem perder o seu encanto
Mesmo sofrendo avarias

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A você e esse sorriso desconcertante...

 








     Olha... Deus me livre desse sorriso apontando pra mim. Não que eu prefira o choro e a ira, mas esse sorriso destrói uma vida, tem ciência?
     Ok, uma vida não. Mas derruba qualquer barreira que eu criei em torno de mim contra esses ataques esfuziantes do cupido que, quando vem, nem sempre é com as melhores opções.
     - PORTANTO, disse ao coração, NADA DE SE APAIXONAR, OUVIU?
     Não, ele não me ouve de jeito nenhum. Nunquinha nessa vida ouviu! Então, já que não posso contar com ele, posso contar com você? Simples: escondendo esses dentes branquinhos dentro dessa boca de beleza ímpar, com esses lábios carnudinhos que dão vontade de morder e fazê-los encostar nos meus. Guarde-os.
     Pode ser? Porque não sou imune à paixão que certamente me içará ao céu e, como não sei voar, jogará ao chão um tempo depois. Obrigado pela colaboração.

domingo, 25 de setembro de 2016

Sereia









   



     Eu sei lá dos mistérios desse mar. Na verdade, sei pouco ou quase nada de todos os mares. Há um medo cercado de respeito,  que a certa altura se misturam. Há também encantos, e estes são segredos. E segredos são sagrados.
     Guarde, então, grande mar, seus segredos, mitos e lendas. Como os cantos que não se devem seguir.
     Obrigado pelo colo. Odoyá!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O último trem

   

     Madrugada...  É aquele trem sem destino que vai largando suas cargas de porta em porta.

     Quando tudo e nada fazem sentido na mesma intensidade; Quando nascem os melhores textos e ao mesmo tempo aqueles escritos que se fossem no papel, teria o lixo como destino. Sem lógica. Ou tanta lógica que jogaria toda sua postura fora. Para melhorar, a pior música com as melhores melodias para rasgar-se todo de vez. Um amor que ri e chora, no silêncio que grita e molha a fronha e o lençol...
     Quando vem a vontade de pegar o telefone e ligar para 300 pessoas e vociferar todas as confusões que moram na sua mente. E ao mesmo tempo, sabe que ninguém entenderia a profundidade das suas reflexões, por mais que se esforçassem. E por ser tarde, não acordaria vocês, meus amigos... E por nem eu mesmo entender o que se passa aqui dentro, jamais cobraria esse entendimento de quem quer que seja.
     Vou aos poucos me convencendo de coisas absurdas. Todas as certezas do dia vêm num pacote e desembarcam na minha cama. Quando eu abro, são as besteiras que pensei ao meio dia e disse “agora não”. Pois bem, na madrugada elas vêm cobrar atenção. E eu dou a atenção que elas merecem. Tento zerar todas as dívidas para começar bem o dia. A essa altura, a cabeça já dói de tanto chorar, eu só penso em dormir porque preciso acordar cedo para trabalhar. Mas tem tanta dívida para pagar, que apagar, realmente, só às 3h...

     A madrugada vem trazendo as saudades que já estavam enterradas há tempos. Enterradas, não... Adormecidas, hibernando nas cavernas (da tentativa) do esquecimento. Tolo! Sou completamente virado do avesso e revirado inúmeras vezes até pousar do lado certo, enquanto as confusões repousam do meu lado. Sempre tem um travesseiro sobrando mesmo...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O Cara

   









     De tanto ouvir as histórias de amor das pessoas, passou até a acreditar que esse cara existia. Não um cara que pudesse amar. Mas o amor, esse cara meio que inventado por todas as pessoas para justificar as insanidades cometidas com sorriso nos olhos. Ou os choros de morte na boca. E vice-versa, sabe?
      Pegou a bolsa e saiu. Andou a cidade toda e viu esse cara várias vezes num único dia de setembro. Com calma, nada para se fazer. Viu folhas caindo. Achou lindo! Ainda pela manhã, um cão se soltou da coleira e correu em sua direção. Sem medo, se abaixou, fez carinho em sua cabeça. Era amor puro presente. Achou lindo e foi embora sorrindo. Aquele sol de meio-dia dói em Bangu, mas não na zona sul... A praia de Botafogo estava suja, mas lá no fim daquele quadro, dois morros viram um, fazia uma leve sombra na água do mar. E - NOSSA! - como era lindo. As árvores da rua Paysandu, no Flamengo; Os arcos da Lapa com o bonde passando lá no alto; O Theatro Municipal e a Candelária, ornados pelos detalhes  e acompanhados pelo sol; Toda a extensão calma da Presidente Vargas à sombra... O cara estava ali.
     Almoçou dois pastéis com caldo de cana em Madureira e Madureira é muito amor... As crianças curiosas com as coisas vendidas na calçada do Mercadão são lindas. Perguntas como "mãe... Pra que serve aquilo?", àquela hora, se fez em amor.
     O tal cara resolveu fazer companhia o dia inteiro mesmo. Comprou coisas inúteis e que nunca usaria. A única bolsa já não estava sozinha e era amor em cada sacola plástica. A tolice é o amor. E ela nunca tinha pensado nisso. Em casa, cansada, tomou banho e cada gota que caía era amor líquido derramando em seu corpo. incrível como foi o melhor banho de sua vida.
     O amor mora nas imagens e nos detalhes... Deitou pra descansar. Sorriu. E amando, sonhou.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pausa











Está tudo depressa demais
Além dos meses e anos
Vejam os carros!
Além de cinzas e preto depressa demais
Passam e nem se veem mais...

As pessoas,
Tal qual a moça que sai do metrô,
Também não se olham
Sempre nesses metros rasos
Sempre nos constantes atrasos
Para a escravidão que paga
Para que você não sorria
Os amores estão depressa demais
Passam e nem se marcam
Esquecem-se no meio de tanta correria
Desmancham-se na covardia
Pelo medo da profecia infeliz
Que só se é uma vez
Verdadeiramente feliz
Os acordes, estes também,
Estão rápidos demais
Para encaixar letras maiores
Numa canção descartável
Que virou uma qualquer
Não dedicando verso algum
A sequer uma mulher
Os livros, mais finos,
Para leituras cada vez mais depressa
Receita combatente da preguiça
Não há mais quem peça
Num canto da biblioteca
Um café para passar o tempo
Ou para congelá-lo
Ignorando a igreja
Que com seu badalo
Marca o meio-dia
Eu bem queria...
Eu bem queria
Um freio nessa loucura
Um tanto de doçura
Retirar a pilha do tempo
Para o bloqueio desse vento
Que torna a vida tão dura

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A casa, a Lanchonete e a Culpa

















Desencontrada
No meio da estrada
Em frente à lanchonete
Se alimenta só. Engorda
Se entope e polui
Cospe em si. Maltrata-se
Rasga-se e sofre
Mate-se pouco a pouco

A lanchonete
Que em frente, chama ninguém
Não pisca, Não grita
Não acusa a atenção... É a dona do mal
O mal que a Casa se propõe
Nunca será culpa dela
Ela não olha pra si
Já nem cabe mais em si

A lanchonete é o álibi perfeito
Pra quem vive seus defeitos
Apontando as deformidades
Que passam na outra calçada

Com licença, Maestro












É pau, é pedra
É osso, é foda
É tudo, é nada
É choro, é fossa
É chegada, é partida
É grito, é pranto
É estrada, é a vida
É a perda do encanto
Mas perdão discordar
Acompanhado ou sozinho
Que tal desencanto
Seja o fim do caminho

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O tempo passou na janela...




A verdade é que eu passei muito tempo sem querer nada. Inerte. Vendo o mundo rodar, o tempo passar pela janela e, eu (nem Carolina*), não vi(mos). Daí, tomei o choque. Um tiro - ou soco no estômago - da vida despertou o quanto resta pouco tempo a frente. Mesmo que seja muito.
Morremos um pouco a cada dia, desde que nascemos. Um dia a mais, sempre é um dia a menos. Vivê-lo como se fosse o último, antes de ser uma espera trágica é a melhor forma de fazer valer a pena esses poucos momentos que temos aqui. Sejam eles correspondentes à 5 ou 50 anos.
Mas, voltando ao soco na boca do estômago, que provocou úlceras terríveis à primeira vista, comecei a querer tudo. E ao mesmo tempo. Que loucura ter só duas mãos para abraçar esse mundo gigante! Aqueles sonhos na gaveta (junto com alguns textos impublicáveis) vieram à tona e na mesa, a vontade de realizá-los virou prioridade.
Que bom!
Desejo a vocês muitos socos no estômago, se preciso forem. Mas não deixem de sonhar, realizar, e assim, viver.

                         __________________________________________
*Em referência ao samba lindo e triste Carolina, de Chico Buarque, mais precisamente ao trecho "Eu bem que mostrei à ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu"


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Devaneios de um dia ensolarado










Ah, que desperdício de tempo
Estar preso num prédio
Trampo ou apartamento
Dia lindo lá fora
Perfeito em se perder
Esquecer-se da hora...
Vá, fuja!
Perca-se
Abandone-se deste corpo engravatado
Dessa jaula econômica das oito horas
Dia lindo demais 
Para computadores e impressoras
Corra na areia, fique de boas
Mas caso for,
Leve-me junto, por favor
Ou seremos apenas
Devaneios de um escritor

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Cimento fresco













- Oi.
- Oi...
- O que você está fazendo?
- Estava, na verdade...
- Como assim?
- Estava me curando de você. Do vício de você. Da vontade de saber onde você está, com quem e fazendo o que... Mas aí você reapareceu, de repente,  derrubando o muro que eu criei pra me proteger, com cimento ainda fresco.
- Nossa, desculpa o incômodo.
- Agora?  Fica né! Me ajuda a terminar de destruir o muro?

Saudades, senhor










     O Amor? Conheço esse moço... Algumas vezes veio numa visita rápida; Noutras, até chegou a dormir por aqui. Estranhamente, criamos um laço de amizade, com papos demorados, entrosados, ideias em comum. O Amor é bacana! Bebemos juntos, saímos para dançar. Outras vezes, me Levou a lugares incríveis sem sairmos do lugar

     Mas anda meio sumido... Sinto que ele está aqui perto, talvez na vizinhança. Mas aqui em casa ele não vem há tempos. Se alguém o vir, por favor, avise que o prato dele está esfriando. Podemos jogar um baralhinho, beber um vinho. Se ele estiver magoado comigo, podemos conversar e nos entender. Ele precisa me explicar o que eu fiz.

     Saudade dele, esse sapeca...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O das ruas


Tava lá na esquina
Olhando para o nada
Nada, realmente, havia
e ele fez-se do nada
Pois nada era tudo o que tinha

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Seu pouso










Passarinhos passarão
Por aqui gorjearão
Mas vão procurar
Outros Flamboyants para pousar
Porque este ninho
Embora esteja vazio
Será sempre o seu lugar

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cacos













Pegue a pá, uma vassoura e junte os cacos. 
Pode se dar o trabalho de tentar colar, mas quantas vezes você já fez isso? Porque não tentar se refazer? Reinventar-se?
Cacos todos temos e sempre teremos! Sempre nos espatifaremos de cara no chão na próxima esquina, mesmo que a esquina não esteja tão próxima. O tombo as vezes é pequeno, caso não tiver dado tempo de subir tanto (comemore, nesse caso!). Acostume-se, por mais cruel que seja essa realidade, com os tombos. Aproveite que "merthiolate" não arde mais, faça um curativo e volte a andar. Mas se quebrar, por favor: Analise se vale a pena fazer reparos emergenciais, e tornar a ser a mesma pessoa outra vez. Não se culpe por se cansar de quem você é! Insano conselho, mas faz parte essa mudança de roupagem.

Esse processo leva mais tempo. Pede um período de auto-avaliação. Pede uma certa abdicação... Mas seu retorno, acredite, será 100%! 
Mas caso tenha se acostumado a ser apenas 50%, 60% ou 70% do que pode ser, aconselho que pegue a pá, uma vassoura, uma cola e remonte os cacos... Mas tenha conhecimento do prazo de validade.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Desencontro










Sem a facilidade de encontrar por aí
Um amor que pudesse chamar de verdade
Nos perdemos
Vaguei pela cidade
Num batuque, sob os Arcos
Ela, na orla olhando os barcos
Ficou por lá, esperando alguém.
Alguém que até hoje
Não sabe se vem. 

A gente se vê...

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Meu reflexo III










Eu minto sempre
E a principal vítima é meu espelho
Quando me percebo vivo
São!
As vezes esqueço que vivo
Perco tempo apenas existindo
Arrastando-me
Empurrando-me aos precipícios
Acordo e, de repente, sei voar
Insano!
Olho de volta para o espelho
Meu reflexo devolve a ousadia
Sorri para dentro de mim
Através dos meus olhos
Invade-me a alma
E minhas certezas são todas reviradas
Revistadas
Postas para fora
E eu me limpo.
Meu reflexo me varre
Mostra-me a verdade
O espelho se quebra e se refaz
E o reflexo me diz:
"Esse é o novo você...
Bom dia, bom trabalho!"
E eu saio.

Ela










No início,
Seu medo era ser deixada.
Histórico incrível de rejeições
Achava impossível suportar a próxima.
E a próxima chegava.
Ela relutava, se iludia
Amava e se perdia.
Ao olhar para o lado, estava outra vez sozinha
Avançou duas casas. Eles, uma só.
No fim,
Acostumou-se
E aí, foi
Vez ou outra.
Vez em quando.
Vez em sempre.
Sozinha.

Testagem













Deitou-se com vários
Assim, por experimentação
Deixou que a usassem
Pensaram que a usariam
Ela quem os usava
Testava, sentia,
Roubava-lhes a alma
Deixava-os fracos
Entregues, sem sangue
Sem ar
Depois mandava-os embora
Pois até agora:
Com alguns, um beijo bom
e apenas;
Com outros, um sexo bom
E apenas.
Nenhum, porém,
Abraçou-a de modo satisfatório
Na hora de dormir
E no fim de tudo
Isso é tudo que ela quer

domingo, 10 de julho de 2016

Além da capa


Pronto, vou revelar:
Usei aparelho!
Tinha um sorriso bacana, mas um dente torto para dentro
Daqueles encavalados
Nas fotos, algumas, parecia não ter dente
De tão para trás tal dente estar
Mas sempre fui assim
Uma alegria que, até, atrai
Uma simpatia que, até, faz se aproximarem
Portanto...
Sou mais que esse sorriso que você diz ser lindo
Fui educado de uma forma linda
Com amor que até hoje entrego a todos

O encantamento com o sorriso é passageiro
Enjoa, com o tempo
Torna-se natural, normal, e as vezes banal 
Então,
Se não souber olhar para dentro de mim
Meu sorriso só vai te fazer feliz à primeira vista
Talvez até à segunda, terceira...
Mas o que eu tenho aqui dentro
Se souber enxergar
É contínuo...
Mesmo não sendo eterno.

sábado, 9 de julho de 2016

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Control L












Sei lá mais o que eu quero
Se o que tanto quis ainda tem valia
Já nem me lembro mesmo do que queria
Nem do que gostei um dia
Nem sei em qual esquina da vida me perdi
Porque este aqui
Claramente
Está longe de ser eu

Caneca











Ei, você!
Falta muito pra chegar?
Eu sei que não me prometeu nada
Tão pouco me conhece
Já passaram tantos corações por aqui
Mas o seu... 
Ah, você!
Por onde anda?
Bem, pra lhe esperar fiz um café!
Se preferir, cerveja na geladeira
Pinga no balcão, bolo no fogão
Tem feijão fresco também
Sempre me virei bem
Mas ao chegar
Traga esse amor quentinho
Pra transbordar minha caneca...

Que há tempos anda pela metade.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Amanhã

Na manhã de amanhã 
Claro, teremos sol. 
De dentro pra fora
Expondo e excluindo as mazelas
As dores 
Os medos
Mas agora, enquanto sendo hoje
Deixe que a dor me doa
Pra que sobre nada para amanhã
Que a lágrima caia
E que molhe o solo
D'onde há de nascer as flores
Que o sol de amanhã iluminará

segunda-feira, 7 de março de 2016

Mais um dia... Menos um dia


Quero dormir, ou quem sabe, fingir
Sonhar, ou quem sabe, partir
Me eximir da culpa de viver 
Enquanto houver motivos pra morrer
Decido a vida como bem quiser
Por isso me recuso a perder...
Ao acordar nesse falso altar
Por me agraciar com tantas cores
Queira, Deus, ser dono de mim
Livrando a amargura dessas dores
E lindo ser, vivendo
Sonhando, mas permanecendo atento
Talvez ignorando o calendário
Que insiste em me mostrar o fim do tempo
À luta, sem perder a esperança
E sem esvaziar o coração
Desejo ir dormir feito criança
Que se encanta com bolinha de sabão

Ir

Tudo é questão de confiança,
Que eu também nem tenho tanta,
Mas sorrio e vou à luta
Pois seguir é importante
Mesmo com a batalha curta
Mesmo sendo um ser errante
Mesmo que nem tudo rime
Mesmo com falta de ar
Mesmo que tudo termine
Mesmo que me faltem as pernas
Mesmo que acabem as caronas:
Ir ainda é o melhor
Pois a volta me compensa
Com o sorriso que fui

Volto, as vezes diferente,
Com a confiança de sempre
Ou de nunca, como sempre
E quem é que vence sempre?
E para que existe o sempre
Se é o impossível que me espanta?
Nessa terra de "me espera"
o "vambora" é que me encanta

Elas sempre olham


     Os dias, para quem mora longe do trabalho, já começam cansativos na viagem. Não possuindo carro particular, piora um pouco. O jeito é se arrumar bem, borrifar um bom perfume, se vestir de um lindo sorriso e pedir carona encarar o transporte público, onde ás 07 da manhã já é possível detectar alguns odores não tão agradáveis quanto o seu, pois já deve estar na rua desde ás 05 horas. Não, isso não justifica, pois existem desodorantes com 48 horas de duração (quem fica esse tempo todo sem tomar banho???). E sua blusa bem passada? Esqueça disso se por acaso depender de ônibus, trêm ou metrô...
     Mas nem tudo é de todo ruim. Eu que faço essas viagens tomando conta da vida dos outros prestando atenção nas cenas cotidianas, às vezes me emociono. Dia desses no metrô, cheio como de costume, me apoiei na porta, na tentativa de sobreviver de um possível esmagamento, olhando para todos à minha volta, com o tempo passando mais depressa no relógio que a composição sobre os trilhos. Do outro lado, um homem e uma mulher, bem próximos (e não tinha mesmo como não estarem), conversavam sorrindo, enquanto ela carinhosamente passava as mãos no cabelo dele. Ele, por sua vez, a olhava expressando ternura e admiração extrema. Torci para um beijo, enquanto eles falavam sobre planos, e ela notoriamente com mais idade parecia lhe dar conselhos e dizer o q faria se estivesse em seu lugar. Ele consentia, balançava a cabeça afirmativamente.
     Eu ainda torcia para um beijo quando foi anunciada a próxima estação. Eles começaram a se despedir, se olharam e levemente tocaram os lábios um do outro. Tão sensível e apaixonado, que passei a ser o terceiro apaixonado daquela relação. Quando abriu a porta do metrô, ela, antes de sair com suas enormes bolsas alocadas no ombro direito, virou e lhe disse: - Mamãe te ama!... Arregalei os olhos para impedir que qualquer lágrima marota se derramasse deles e me controlei para não ir até o rapaz e perguntar o que faltava para ele dizer que também a amava. Eu não precisava mesmo interferir no relacionamento deles, pois ele disse. E alto! Eu estava quase satisfeito naquela manhã...
     Enquanto a mãe mais linda daquela viagem se afastava à caminho da escada, eu torcia: "ela vai olhar pra trás". Eu tinha certeza daquela cena complementar. O metrô fechou as portas, enquanto o rapaz a olhava se distanciar. Ela, como em câmera lenta, pôs o pé na escada, se virou, sorriu, e com o auxílio das mãos, entregou-lhe um beijo, jogando-o no ar com o endereço daquele rosto de menino que o filho passou a ter naquele momento. Eu sabia... As mães sempre olham.

     Direcionei-me àquela porta para descer na próxima estação, olhei para o rapaz e por pouco não o abracei. Mas me contive e apenas sorri, associando aquela cena à tantas parecidas que vivi com a minha mãe, recordando de todas as vezes em que a flagrei olhando para trás ao nos despedirmos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Coração Vagabundo



Quantos olhares, e flertes, e sorrisos de canto
Quantos encantos perfumados para um encontro qualquer
Que, antes de ir, deixou em mim a paixão.
Passageira. Mal me lembro de seu rosto...
Quantas mãos dadas flagrei e pelos dois me apaixonei!
Num surto de um ladrão, quis separar suas mãos
Para entrar no coração de ambos
Amar e ser amado num triângulo pervertido e vulgar
Danem-se as regras e o bom senso e o bem.. e o senso!
Quantas vezes neste dia
Olhei para as mãos de quem atendia
E gaguejei no meu ofício
Transpareci a paixão repentina
E lhe sorri, como criança no natal
E lhe esqueci, igual às passas do natal
Me apaixonei sem me apegar
Varias vezes em um dia
Imagine, que loucura,
Contabilizar durante a vida.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Desesperança



Estamos no vazio do mundo
O alívio não chega
O trem não chega
O socorro não chega
São gritos vãos
Pedidos tolos por compaixão
A mão não pega a mão do irmão
Tá tudo cheio e tão vazio
A água não chega
A morte não chega
Agoniza precoce
Paga qualquer preço e não vê troco
Nem matéria nem imagem
Mesmo que seja pouco

A bomba chega
A faca é cega
Fere e mata
Quando mata,  não explica
E quando explica já enterrou
O inquérito é vão
O policial já atirou
O terrorista já explodiu
Os omissos não divulgaram
E você nem se deu conta
Que se desse a mão ao irmão
Se o trem chegasse
Se o alívio chegasse
Se fome não matasse
Não viveria essa desesperança
No meio do mundo
No centro de tudo
Contando só consigo
Ou com a sorte

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Morre gente


Morre gente triste
morre gente forte
Morre quem duvida
Até da própria morte

Morre o Delegado
Morre até o juiz
Que julgou em vida
O que é ser feliz

Morre a menina
Que tão jovem ainda
Nem deu tempo de
Achar a vida um porre

Morre a senhorinha
Que viveu com medo
A vida inteira
Pensou só na morte

Morre o transviado
Que com Deus debate
Morre gente crente
Morre o homem ateu

Morre todo mundo
Todo mundo morre
Quem fugiu da morte
Nem sequer viveu

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Adeus, infância


Adeus, brinquedos, adeus
Não mais teremos
Adeus lanchinho na vó
Com os netos seus
Adeus corrida do saco
Adeus, turminha
Brincar na rua, à tardinha
Adeus, adeus

Adeus, infância querida
Não mais veremos
Casa na árvore de outrora
Com os primos meus
Adeus "carrin" de rolimã
Bola de gude
Amarelinha e pião
Adeus, adeus

No chão, corrida de tampinha
Não brincaremos
É cada um com seu jogo
Em jogo seu
E cada qual do seu lado
Ninguém se fala
Às amizades, de fato
Adeus, adeus

Banho de chuva nem pense
Não tomaremos
As doencinhas derrubam
Os filhos seus
Os anticorpos,
não mais produziremos
Adeus, comer à vontade
Adeus, adeus

Ainda espero que um dia
Nós encontremos
Numa cidade remota
A tenra idade
Verdadeiramente livre
De pés no chão
Longe de tanto aparelho
Que aprisiona
Mostrando o simples prazer
Da felicidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

À toa na vida...

   
     Já perdi tanto tempo querendo algo que não deveria; lutando por algo que não teria... Nesse tempo, deixei a janela aberta, o feijão no fogo, a geladeira aberta.
     Quando me dei conta, não tive o que tanto lutei pra ter, enquanto o feijão queimava, o gelo derretia e molhava toda a cozinha, e a banda passava cantando coisas de amor, com tantos amores melhores com fantasias de carnaval.
     Só aí eu percebi que perderia mais tempo ainda recuperando o estrago que a perda do tempo causou. Tive de limpar o fogão e a cozinha, pôr minha fantasia e correr atrás da banda, que àquela altura já estava pra lá depois da dispersão... Ainda não cheguei.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os sentidos das memórias


     Sou assumidamente nostálgico. Saudosista nível 11, numa escala de 0 à 10... Vou me apegando, por exemplo à perfumes que me remetam à determinada época. E essas lembranças vão me levando à outras, me ligando à terceiras, e quando vejo, já estou em 1994, de cara com as mortes de Senna, Tom Jobim e Mussum; vibrando e me emocionando com o Tetra, cantando a música do comercial da Kolynos ("...hálito puro refrescante pra vale-e-er..abra um sorriso feliz..."♪). Tenho lembrança até hoje do perfume da minha professora do C.A., que equivale ao primeiro ano das crianças de hoje.
     As músicas, então... Tem um poder absurdo de me transportar diretamente pras cenas mais desimportantes da vida. De repente, assim, do nada, estou com 7 anos, ouvindo os discos da Xuxa ( que a esta altura já eram antigos), num aniversário meu qualquer, em que me era permitido um dia inteiro escutando os discos da loira, de quem fui muito fã a infância inteira.
     Às vezes vejo algum letreiro e a fonte cujo letreiro foi escrito me lembra daqueles seriados japoneses. Viciado mirim em Changeman, Jaspion e todas as sagas japonesas dos anos 80 e 90, sou jogado de novo pra lá, como quem está num sofá, se empapuçando de bolinhos de chuva e olhos vidrados na TV Manchete...
     Esse apego às recordações se deve ao fato de, talvez, eu sofrer da síndrome de Peter Pan. Crescer? Nunca quis... Vou preenchendo meus espaços de saudade. Memórias gostosas que sobrevivem graças aos perfumes, às formas, cores, tons e sons. Vou vivendo fazendo essas associações, como quem sempre vai conseguir um jeito de não apagar o passado, e, mais que isso, perambular sempre por lá. Talvez seja uma forma de não crescer. Uma fuga desse mundão louco para aquele em que a Xuxa descia da nave, tomava café da manhã numa mesa gigante e cantava como se fosse só pra mim. Desse jeito, vou sorrindo pra mim mesmo, sendo chamado de louco, mas me permitindo fechar os olhos e ser feliz de novo, daquele jeito simples que as crianças conseguem ser.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Meu reflexo II

 

      Certa vez acordei e dei de cara comigo. Maldito espelho que insiste em me mostrar. Do lado de cá, indisposto a ver quem quer que fosse, me obriguei a sorrir, na tentativa de refletir algo positivo para o restante do dia. E saí, mal convencido.
      Tomei um ônibus e, antes que pusesse meu pé no primeiro dos degraus, vi meu rosto mal humorado no retrovisor. Obriguei-me a sorrir. Enquanto isso, o motorista me sorria, pensando que meu riso era para ele. Desejou-me um bom dia caloroso, e a trocadora refletia o sorriso do motorista, que refletia o meu, que não passava de um reflexo mentiroso do retrovisor do ônibus.
      Ao chegar no trabalho, me sentei e a mesa de vidro, teimosa como todos desse dia, me refletia. Obriguei-me a sorrir, a fim de me iludir com um dia agradável. Nisso, chegando os colegas funcionários, os mesmos me sorriam de volta, sem saber que meu sorriso era falso. Tanta graça foi iluminando o dia que, àquela altura, eu já nem lembrava porque começara tão ruim...
      No fim do dia, contabilizei tantas risadas espontâneas a partir de sorrisos forçadamente refletidos que resolvi beijar meu espelho e o agradecer, como quem agradece a si mesmo, pelo lindo dia que ele me proporcionou.
                          (...)
      Hoje acordei e dei de cara comigo. Bendito espelho, inspirador dos sorrisos de todo dia.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Adeus, saudade


Havia algo aqui dentro
Fazendo barulho
Batendo, batendo
No mesmo compasso
Batendo no quarto
Um velho baú
Com seus velhos retratos

Abri o meu peito
Abri o baú
Saudade daqui e dali
Escaparam
Se encontraram no céu
E caíram lágrimas
Do céu, como chuva;
Do baú, manchas antigas;
Dos olhos, soro e leveza...

Aquele barulho
Quase me fez surdo
Emudeceu na tempestade
À saudade, disse adeus!
Fechei e guardei o baú
Limpei e fechei o peito
À vida, uma nova chance!
Renascido em branco e preto

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Rouco


Não faça pouco desse mal
Que nos consome pouco a pouco
Não julgue mal por ser tão pouco
O que lhe dei de coração
Não seja louco por tão pouco
Se normal não é tal mal
Não faça mal a este louco
Que se contenta com tão pouco
E de tão louco, pouco a pouco,
Está virando alguém normal.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Você é dor









De dor você entende nada
E nada você entende bem
Cuspindo soberba na cara
Olhando a dor de ninguém
De riso estampado na cara
Debocha de quem não o tem
Mas sua verdade é tão rara
Ninguém pagará um vintém

Implore a mão
De quem tem compaixão
Alguém haverá de estender
Entenda, amor:
Em todo canto de dor
Terá um pouco de você.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Caminhos



     É difícil conviver com o medo. Principalmente quando este vem acompanhado de outros. As vezes temos a sensação de que o tempo corre mais rápido para nós e acredite: pode ser verdade. Enquanto perdemos tempo dando atenção aos nossos medos, outras pessoas estão arriscando e ganhando esse tempo que perdemos olhando para o nada, angustiados por não tomarmos decisão...
     É complicado domar o medo quando ele cria um dilema. Por exemplo: ficar perdido entre o que quer, o que gosta e o que realmente precisa, passa aquela sensação de estar localizado, estático, no meio do nada, com três ou mais caminhos à disposição e com uma ampulheta marcando o escasso tempo que tem para escolher.
     O preocupante dessa situação é justamente essa escolha. Ou a "não escolha". Perdido nessa trilha, na qual não se sabe ao certo aonde vai dar, pode parecer um suicídio decidido na Roleta Russa...
     Mas e o tempo? Ele não ficou parado enquanto decidíamos o caminho. Não sei qual a melhor resposta, mas, certamente, ficar parado no meio da trilha não é o mais aconselhado.
     De verdade? Fecha o olho e vai! Se der errado, volte duas casas, já ciente de qual caminho não seguir. E se não der para corrigir a opção errada, a vida se encarregará de propor outros dilemas, com outras questões e você verá que foi testado durante toda sua existência, numa infinita prova de múltipla escolha, desde quando não sabia se gostava mais de Cremogema® natural (com canela ❤) ou de chocolate... A vida cobra respostas definitivas.
     Então, sem medo do final, se joga. Paulinho Moska diria:
"... Qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada?"

Boa prova... Digo, boa sorte!

quarta-feira, 11 de março de 2015

Seguimos esperando...

 


     Pelo fim do dia; pela sexta-feira; pelo grande amor. Esperando pelas festas; pelo natal; pelo verão e o carnaval.
     Esperando pelo trem, como Pedro Penseiro; pelo fim do mês e o salário; pelo aumento que demora a vir...
     Esperando pela sorte; pelo destino. Esperando pelo milagre. Aceitando a sina e o "carma". Aceitando o açoite da carne.
     Seguimos esperando nove meses... Ou sete. Esperando o anúncio do sexo. Esperando o encaixe no sexo.
     Esperamos fazer 18. Depois 20, 30... Esperamos pelo casamento e depois pela coragem de dizer "chega".
     Esperamos virar o ano. Depois o outro e o próximo. Impressionante como raras vezes o tempo presente é aceito como um presente.
     Chegará um dia em que estaremos próximos do fim e nos daremos conta que desperdiçando momentos, na torcida para antecipar os próximos, estivemos de algum modo abreviando a vida passando todo o tempo esperando, esperando, esperando...

terça-feira, 3 de março de 2015

Morena Gê

 

     O problema é que ela era bonita. Morena, magra, bunda grande, cabelo cacheado, gostosa. O tipo de mulher que o gringo descreve quando fala das brasileiras. E para a sorte de muita gente, ela era carioca. Muita gente mesmo...
     Por saber de todo seu poder feminino (e  o conhecimento desse poder é a maior arma de uma mulher), usava e abusava da sedução latente na sua personalidade, sem pudor nenhum. Possuía um número vasto de admiradores (para usar um termo "light") e uma lista bem reduzida de namorados. O pessoal gostava disso, afinal, para que privá-lo de tanta beleza desfilando pelos cantos da cidade?
     Acostumada a transitar pelos sambas, pagodes, festas e bailes, não se fazia de rogada quando queria a companhia de quem quer que fosse. Arrastava consigo sempre uma fileira de amigas, amigos e até um ou outro caso e até ex casos amorosos. Normal... Para ela. Mas daquela vez ela exagerou...
     Era a semana que antecedia um super baile de música negra. Uma noite black, dedicada inteiramente ao ritmo, cujo estilo tinha tudo a ver com ela, como quase todos. Fez seus contatos e foi tratando de convidar seus amigos. No calor da emoção e tomada pela euforia, convidou um amigo com o qual já havia tido um caso. Depois, chamou um "ficante" atual. Após, outro rapaz, que também estava "conhecendo" há algumas semanas... E assim ela foi se empolgando e convidando, até chegar no inacreditavel número de 11 "amigos", todos com algum tipo de envolvimento amoroso ou sexual. Ela só não contava que todos aceitassem prontamente o convite. Mas ela, que nunca negou gostar de ver o circo pegar fogo, se divertia com a história e imaginava o quanto seriam engraçadas as cenas desse episódio.
     Chegado o dia do baile e lá foi ela se preparar para a noite: saia amarela começando na altura do umbigo e terminando num tamanho suficiente para tampar o que não deve ser deixado à mostra; blusa branca, colo aberto e barra logo abaixo dos seios, deixando livre a brecha que exibia uma barriga lisa, morena e sem excessos, aparecendo até o amarelo da saia que realçava ainda mais sua cor alucinante; o cabelo alisado, rejeitando qualquer tipo de ditadura que a obrigasse deixar seu cabelo cacheado só porque virou moda deixá-lo assim.
     Saiu de casa sozinha. Afinal, companhia não faltaria. Os onze rapazes, coitados... Também foram sozinhos. Chegando, um a um. Não se conheciam. Eram brancos, negros, magros, altos, fortes e até alguns com um padrão de beleza duvidoso. Era diversificado o gosto da moça.
     Ao chegar no baile, o que viu foram sorrisos e olhares brilhantes. Desde o DJ, passando pelos 11 trouxas, até os vendedores das barraquinhas... Apenas os onze se sproximaram, instantaneamente, a cumprimentaram e ficaram ali ora dançando, ora como guardiões, protegendo-a dos outros. A danada evitou o quanto pôde qualquer contato íntimo. Exceto quando arrumava um jeito de ir ao banheiro com um, ou buscar uma bebida com outro, ou outra desculpa para se ausentar com os nove restantes. Um de cada vez.
     Aquela zona parecia ordeira, até a princesa resolver flertar com um mulato à poucos metros dali. Alto, forte com os braços amostra em sua regata, um boné mal posto na cabeça, ginga negra e sorriso amplo. Não satisfeita com os onze rapazes que a cortejavam, se aproximou da décima segunda vítima e dançou sensualmente, de frente e de costas, provocando aquelas reações hormonais no pobre mortal.
     Enquanto se deleitava da música e do corpo do moreno, sorria para os outros, ignorando o fato de estar se iniciando uma guerra entre eles. Estes, se dando conta de que estavam ali pelos mesmos motivos, convites e intenções, a xingavam, enquanto alguns a defendiam e outros já se degladiavam. E ela? Ria, diabolicamente, enquanto mordia o canudo da caipirinha. Àquela hora, os onze iludidos já trocavam socos indiscriminadamente entre si, enquanto ela se entregava aos beijos e braços do tal mulato nunca visto antes por ali.
     E enquanto o sangue dos enganados já manchava o chão da Pedra do Sal, o do negro fervia, o impulsionando a arrastar a "menina-moça-infernal", que de livre vontade deixava ser levada por ele, que mal a conhecia e tinha nada a ver com a história. E viveram felizes até o baile seguinte...
   

                                 Leonardo Pierre
     

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DESCONTENTE


Que ninguém comente:
Mas o corpo mente 
Toda a dor que sente...
Esquecer? Nem tente!
Um jeito, talvez, invente.
Mas desde já, fique ciente
A saudade manda e desmanda na gente!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Quem?


E quem, além de mim pode ser?
E quem, além de ti, pode ter  mim?
E quem haverá de dizer
O que falei há  tempos atrás?
Mas...
Você chorou, e desperdiçou tanto amor
Que eu guardei só pra te dar
Mas teu coração quis se fechar

E quem, além de mim, te terá?
E quem, além de ti, amarei assim?
E o que farei com as canções
Que eu guardei pra poder te cantar?
Rabiscar, talvez, os versos nos quais o teu nome imperou... Ou vou guardar
Que se outro tomar o meu lugar
Entrego pra ele declamar

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Como gatos


   Durante muito tempo eu quis ser um gato. Aqueles das fábulas, que tem sete vidas! Experimentar essa sensação deve ser incrível. Sair vivendo por aí sem nada temer, com a garantia de ter algumas vidas no bolso. Daí, parando de sonhar e desejar o impossível, passei pelo período de não me arriscar, sob o argumento de não "gastar" a única vida que tinha. Nada poderia ser menor, não é?
     Óbvio que você não é um gato. Pelo menos não da classe dos felinos, peludos, quatro patas... Logo, você também não possui sete vidas. Porém, você pode decidir viver essa única vida como fossem sete, ou esperar que ela passe, sem viver grandes emoções, sem experimentar o risco de se perder vez ou outra. Já falei uma vez sobre viver fora do eixo (leia em http://leonardopierre.blogspot.com.br/2013/11/por-um-mundo-com-mais-viagens.html?m=1 ). Então, quer um conselho? Não, mas vou falar assim mesmo: extravasa aí, vai!
     Claro que a vida passa deixando alguns traumas. Mas permita-se sofrer só o necessário. Arrisque-se e deixem que te marquem outras vezes e sempre. Uma hora será bom... Um trauma que você vive remoendo gerará outros traumas. Nem todo mundo vai entender que seu perfil é fechado e retraído por sofrimentos passados. Dane-se, cara! Outra vida, outras pessoas. Encare cada cicatriz como uma espécie de morte e viva outra vez a partir dali. Tal qual um gato. A vida vai machucar bastante - ah, se vai! Então, imagine: você viverá muitas vidas com certeza. Ouvi dizer que os gatos tem inveja de gente assim. Pois que tenham!
     Sete vidas em uma! Acho que nem mesmo Deus pensou que pudéssemos ser tão sagazes. Desprenda-se de certos medos que lhe impedem de avançar. Com cuidado, sim... Há medos necessários (leia em http://leonardopierre.blogspot.com.br/2013/04/apologia-ao-medo.html?m=1 ). Mas deles também já falei, agora o papo é de coragem.
     Vamos experimentar sair do comodismo, essa inércia inoperante, do medo, dos sonhos que não acordam... A vida é aqui fora, é uma só. E você pode vive-la como quiser, varias vezes, cicatriz sobre cicatriz. É só querer!

                                   Leonardo Pierre
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Oriundo de uma conversa inspiradora com a minha mais nova leitora: a professora e linda, Luiza.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O último suco


“Pai e Mãe,

Está um pouco complicado manter-me aqui. É como se não tivesse motivos para isso...


Escrevendo essa carta, sei que não os tenho mais, mas é que sempre que pensei em fugir, sonhava em deixar uma carta para vocês... Assim como acontece nos filmes. E lembrando que não tenho mais vocês, é que fica tudo mais complicado...


Ninguém me entende por dentro...

Todas as minhas crises, meus dilemas, minhas dúvidas infindas... Minhas conversas comigo mesmo, cada vez mais constantes... O meu canto, cada vez mais alto e desesperado... Por um tom, uma cor, uma ajuda!

Ninguém entende, pai, que eu queria mesmo era ser como você. Ninguém entende, mãe, que os valores que me passou é tudo o que eu tenho. Peço desculpas aos meus amigos por não poder oferecer nada, além disso.

Ninguém entende os gritos que solto, no silêncio torturante, com os olhos abertos e pálpebras trêmulas. Ninguém me socorre.

O meu sofrimento calado, enquanto sorrio falsamente para todos os lados... Ninguém nota.Não sei quem vai ler isso... Por quanto tempo ficarei aqui jogado, se darão falta em horas ou em dias. 

O meu suco de laranja, batido com goiaba, nosso preferido está uma delícia. O último! Com alguns grãos de minhas lágrimas que se solidificaram nesse veneno que me matou pouco a pouco durante anos e agora o fará pela última vez... Misturei, está imperceptível. Muito gostoso e sem cor aparente... Estou meio tonto... Não sei se conseguirei assinar a carta, nem colocar nela tudo o que desejo. Mas moro só, como fiquei só durante esses anos sem vocês, saberão que fui eu. Aos amigos, peço desculpas pela covardia de não conseguir ver a vida de frente, apesar de todas as conversas. Amo todos, retribuindo o carinho que tiveram comigo... Obrigado, desculpas   ..........                                                       

                                                                       Um Personagem
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Menos um dentro de mim...